domingo, 24 de julho de 2011

Ressignificação

“Devemos fazer de tudo para desenvolver a nossa racionalidade, mas é em seu próprio desenvolvimento que a racionaldidade reconhece os limites da razão e efetua o diálogo com o irracionalizável”.

“...O beijo. Aqui reside o enraizamento animal e mamífero do amor”.

“O amor adquire expressão no reencontro do sagrado e do profano, do mitológico e do sexual”.



(Edgar Morin, Amor Poesia e Sabedoria, 2002)

Fazer esforços constantes para a compreensão dos limites da nossa racionalidade pode nos colocar em uma situação de delicada aproximação dos limites da razão, como se tivéssemos que nos aproximar dos limites do nosso campo de força invisível, não destacando aqui a força e a unidirecionalidade individual do campo de cada ser humano. Mas, tentando fazer uma reflexão com o diálogo e com o irracionalizável, podemos cair no silêncio dos deuses e nos deixar levar pelas forças mitológicas que nos aproximam dos outros mamíferos da face terrestre e talvez aí esteja o lado do enraizamento animal e mamífero do amor, que tem no beijo a sua face humana e diferenciadora dos mamíferos comuns.


Quando vemos os nossos parentes mamíferos sentimos a proximidade; basta ver a interpretação humana dada ao comportamento dos cães. O resumo da busca da humanização dos cães seria aquela frase de uma música conhecida pelos brasileiros: “meu cachorro me sorriu latindo”. Ora, será que estamos coisificando, significando e ressignificando a nossa capacidade de compreender os outros seres mais próximos de nós ou, como dizem os escritores, estamos personalizando o incompreensível dentro de uma possibilidade junto ao incomunicável. Hoje já vemos seres humanos com apreço maior aos cães que ao seu próprio semelhante; será que a distorção está na raiz dos limites do diálogo com o irracionálizável, ou será que estamos diante de um momento em que o amor perdeu sua capacidade de nos conectar com o sagrado? Será que a exploração do sexo nos levou ao caminho do profano, e que de tanto profanar perdemos a capacidade de reencontrar o nosso hemisfério imaginário e sagrado, que tenta impor a reconquista do espaço do amor e da poesia perdida, mas que luta para sobreviver em meio à ditadura consumista?


Qual seria o papel da educação e dos educadores: ressignificar a sexualidade humana tão marginalizada e descontextualizada pela dureza imposta pelo modelo vigente, ou simplesmente ver o avanço significativo da prostituição infantil? Ou, ainda, será que estamos perdendo a capacidade de nos indignar com este lado da sociedade que fingimos não ver? Mas, enquanto educador envolto em um manto medieval, nos colocamos o desafio de correr contra um tempo que irá além das nossas existências e, ainda que em um último esforço, devemos reencantar os seres humanos que escondem a ciência dentro dos muros da universidades. E que só por vaidade não colocam as sandálias e saem proliferando o seu aprendizado para resgatar o futuro de nossas crianças, que nos nordestes urbanos deste imenso país não terão acesso nem às migalhas da razão e muito menos à possibilidade de exercitar a arte de amar.

Em suma, o irracionalizável já me é compreensível e resta-me encerrar na esperança de que sejamos capazes de no reencontro do sagrado com o profano, curar e fechar estas feridas sociais que insistem em não cicatrizar.

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